a começar
por mim -
que ainda só
tive hipótese
de o folhear
numa livraria
este
livro
tem
um
blog
que
fica
aqui
conversas escolhidas
e no entanto assunto não falta: do motorista astrólogo que descobre os signos dos passageiros ouvindo as conversas que eles, alheados da sua presença, descontraidamente mantêm entre si; do motorista teimoso com o qual perdi uma aposta a respeito do melhor (maior rapidez, menor preço) percurso já não sei para onde; e pelo motorista distraído que por se enganar no caminho me deixou onde eu queria ficar e não para onde queria ir; até ao enigmático comentário, "a senhora sabe como é que costumo chamar a isto? é comodismo individual", ouvido numa deserta madrugada da av. da liberdade, ao mais plácido dos motoristas (corpo pesado, voz vagarosa, condução contida), ao encontrar, num sinal vermelho, um carro parado a meio da faixa (o que lhe dificultou o acesso à linha da frente).
eu é que não tenho merecido os taxistas que me vão cabendo em sorte. ora entro com os olhos cheios das cores e formas do nikias, sobretudo da série 'quartos imaginários', em torno da qual o jorge silva melo fez o filme que acabo de ver estarrecida. ora saio com os olhos vazios seja do que for excepto dos farrapos cinzentas que neles flutuam na horizontal ou dos fios pretos que por eles deslizam na vertical.
outros passageiros "vêem" os taxistas que os conduzem. outros passageiros habitam o espaço e o tempo (isto é, o universo) da viagem comum. outros passageiros merecem os seus taxistas.
- eles estão sempre a dizer que a fazer asneiras é que se aprende mas depois não aplicam a máxima uns aos outros...
- a senhora parecia que me quer matar...
- sabe, então não sabe. há tantas palavras iguais: porta, bom-dia, ...
- mas como é que foi capaz de trocar espanha por portugal, sobretudo vindo da catalunha?
- e isto não é nada... havia de ver isto de madrugada, quando eles começam a ficar todos bêbados.
"Quand je prends le taxi, soit le chauffeur parle beaucoup, soit c’est moi qui l’abreuve de paroles, soit c’est le silence. Le taxi peut devenir, le temps d’un trajet, l’occasion de s’offrir une «petite psychanalyse» (ênfase da passageira). esta descrição da viagem de táxi, com a qual estou inteiramente de acordo, é do realizador de "trés bien merci", um filme no qual uma das personagens principais (Béatrice), sendo motorista de taxi tem o trabalho ideal para tomar o pulso a uma cidade e à sociedade em geral
festival
T. lá estão eles todos à espera...
em blog alheio ao mundo dos taxicabs, a passageira encontrou este post ao qual acrescentou este comentário
do paradise driver
do newyorkhack
para lá, a passageira teve a agradável surpresa de se encontrar sentada atrás de uma doce cabeça feminina, de cabelo muito claro, à qual perguntou se era estrangeira. ao que a taxista respondeu que não, que era portuguesa e que a claridade do cabelo provinha da idade e não da nacionalidade. para cá, deparou com umas terríveis trombas masculinas, e, depois de entrar, contra-feita, num carro parado a contra-gosto, lá teve de lidar, muito contra-riada, com um taxista sempre muito contra-produtivo.
descoberto novo blog de taxista com o sugestivo nome de cabs are for kissing. a conduzi-lo alguém que há muitos anos observa e pensa (pelos vistos até fotografa) pessoas que se vêm cruzando com ele, ao longo do tempo, em manhattan. na foto, um desses 'outros' que, por se destacarem da multidão, ele reconhece e pelos quais se interessa. outros cujas vidas ele só pode fantasiar, incapaz, por delicadeza, de os abordar e perguntar quem são, o que pensam, fazem e sentem.
os motoristas de táxi guiando carros com o número 666 não perdem nada em ler este post, escrito por um seu colega londrino, a respeito dos perigos incorridos pelos taxistas condutores de viaturas às quais a sorte (ou o azar...) atribuiu o que se diz ser o número do demónio. na foto, o presidente do que parece ser uma antral local (são francisco, wherelse?), vestido a rigor, durante o julgamento que recusou a petição de michael byrne para não usar o número satânico, já recusado no ano passado por outro motorista.


P. desculpe lá se preferia ir por campolide. mas sabe que eu sou muito como os burros, vou sempre pelo mesmo caminho...
T. a senhora há-de reparar que todos os velhotes, sabe dos que eu estou a falar, os mesmo velhotes, 99,9% deles, vão sempre pelos trajectos com mais sinais e mais trânsito...
quando entrei julguei que o taxista tinha o rádio ligado numa estação brasileira. passado algum tempo, percebi que não era música o que o ele tentava ouvir, todo inclinado para o lado direito, mas uma conversa entre várias pessoas. em certo momento, algumas gargalhadas do taxista, despertaram a minha curiosidade. pus-me então à escuta, concluí que se tratava de uma espécie de teatro radiofónico e tirei a minha atenção daquilo em que o taxista punha a sua. chegada ao destino, inclino-me para a frente em busca do taxímetro e no lugar onde o imaginava vejo uma televisão a cores transmitindo uma telenovela brasileira. estava explicada a 'ausência' do taxista bem como a estranha postura do seu corpo, meio inclinado para a direita, os olhos movendo-se permanentemente da estrada para o 'rádio'. desta viagem fiquei com uma dúvida, não sei se existencial mas decerto vital (para a própria existência de taxista e passageira alike): se é legal ver televisão enquanto se conduz, porque raio há-de ser ilegal falar ao telemóvel?
P. ando a fazer um pequeno inquérito...

T. eu acho que não tem significado nenhum. aquilo é dos verdes, que tenho impressão que fizeram coligação com o pc. é de um candidato que, à partida, sabe que não vai ganhar...
P. olhe, neste consegui ler um nome, virgílio castelo...
T. primeiro achei que o nome por baixo era do autor da frase, mas depois vi que eram diferentes. não me lembro agora de nenhum. devem ser não sei, escritores e ... poetas, desse partido.
T. eu também não faço ideia. mas posso arriscar...
P. o senhor sabe qual é o nome por baixo deste zé aqui?
T. ele parece é que atira para as flores...
assustados com as sucessivas hesitações do inseguro condutor, agarrávamos-nos uns aos outros, como que para nos protegermos mutuamente, os olhos bem abertos e as bocas fechadas, à espera do pior... de repente, o silêncio é interrompido por um curto e sumido lamento:

P. mas que ideia tão simpática esta de ter cá jornais e revistas à disposição dos clientes... e o jornal é sempre do dia?
P. eu estava mesmo quase a desistir. já passam mais de dez minutos da hora marcada. e depois era uma raiva, só passavam táxis vazios...