2009-11-18

contabilidade

- isso acho difícil...

- a senhora contabilize. basta contabilizar...
- oiça lá, não é possível. eu sei que há milhares de desempregados. ainda outra dia falava nisso com uma filha minha que, como se diz no linguajar televiso, tem um lá em casa... agora que em portugal haja mais desempregados do que pessoas a trabalhar é literalmente impossível...

- desculpe, eu já lhe disse que é só contabilizar... a senhora faz alguma idéia das firmas que já fecharam?! eu, que estou metido no assunto, afianço-lhe que com este governo já há mais gente no desemprego do que a trabalhar!

2009-05-09

baile mandado

o motorista saudou a minha entrada no táxi comentando que não sabia há quanto tempo andava às voltas sem ninguém o mandar parar. ao que eu respondi, ao que parece, um pouco parvamente, se havia alguma coisa de especial naquele dia.
- não...não há nada, o que é que havia de haver? é assim mesmo, uns dias são diferentes dos outros...
- lá isso é verdade.
- nenhum dia é igual ao outro. cada dia é o seu dia. ainda ontem, ou anteontem, não, não, foi no sábado, fiz 173 euros em menos de 12 horas e ainda tive tempo para almoçar com calma e descansar um bocado. nesse dia não havia sítio por onde eu passasse que não me mandassem parar! hoje entrei às 4 e até agora, são quase 6 não é ... e a senhora é a segunda pessoa que me manda parar.
no final da viagem, curta, desejei-lhe que mal pusesse o carro em andamento houvesse logo um braço no ar a "mandá-lo parar".

2009-04-16

proprietário

a única terra que eu tenho é a sepultura da minha mãe, que comprei o mês passado, ainda não há um ano que ela morreu.

2009-03-28

só para nós

- então como é de borla eu não levo nada?
grita o "meu" motorista, a cabeça de fora da janela, ao grupo de jovenzinhos que distribuem panfletos entre os motoristas dos carros parados no sinal vermelho, à entrada da praça de espanha.
recebido o papel, e depois de lhe dar uma olhadela disciplicente, o "meu motorista" passa-mo para trás:
- publicidade enganosa...
- ai acha?!
- se eles até se preparam para deixar os carros particulares que transportam mais de uma pessoa circular nos corredores do bus ... uma coisa que toda a gente sabe que é só para nós e para os autocarros!

2009-03-27

não chove nem deixa (de) chover

- diziam que ia chover mas afinal...
- pois é.. continua a primavera.
- é por isso que eu digo que os entendidos não entendem nada...
- mas olhe que eu acho que agora as previsões "acertam" quase sempre.
- sim eles tanto dizem... chove agora, chove logo, chove amanhã... que um belo dia há de mesmo chover!

2009-03-24

words don't come easily

longo silêncio de parte a parte, quebrado, a meio da tranquila viagem, por alto suspiro seguido de baixo (mas audível) murmúrio:
- é assim...
- desculpe?
- é assim ... e por isso o que é preciso é ter paciência...
- mas paciência para?
- prá vida minha senhora!

2009-03-23

para ouvir


taxista do dia

passageiro outro

Todos temos histórias de táxis. Acho mesmo que devia haver um blog aberto a toda a gente e só para recolher histórias de táxis, uma espécie de etnografia ou reportagem em aberto e em permanência. Mas se as histórias de táxis são quase sempre negativas, ontem aconteceu-me uma de espanto: a corrida custava 6 euros e pouco. Nem eu nem o taxista tínhamos “trocado”. O mais “trocado” que eu tinha era uma nota de 5 euros. O taxista disse que não era preciso pagar, que “deixasse estar”. Insisti para que ficasse pelo menos com a nota de 5. Qual quê. Resposta: “Não se preocupe, um dia encontramo-nos nas voltas da vida e depois paga-me”. do blog do miguel vale de almeida

2009-03-18

tudo a pé... menos os coxos

- então alguma vez eu dantes me sujeitava a vir do campo grande para o hospital de st. maria!?
- dantes?
- pois... ainda agora estava no campo grande.. agora vai tudo a pé... resolvi vir para o santa maria a ver se apanhava um coxo...
- e apanhou uma coxa...
- pois apanhei!

2008-11-24

passageiro educado(r)

depois de receber o troco, o passageiro despediu-se do motorista com "bom dia". o motorista não respondeu nada. o passageiro insistiu "bom dia" e o motorista continuou calad0. houve ainda um terceiro "bom dia sem resposta até que, ao quarto, ele sai do carro, abre o porta bagagem, saca de uma chave de fendas e, através do vidro, ameaça o passageiro "veja lá se quer que eu lhe abra a cabeça!"

2008-09-17

devolutos

2008-09-03

descobrimento d'1 rectapronúncia

- bom dia, era para o monumento aos descobrimentos, se faz favor.
- em belém não é?
- exactamente.
- então não é dos "descobrimentos" é das "descobertas".
- ou isso...
- e também não é "monumento" é "padrão".
- talvez...
- o nome certo do sítio para onde a senhora quer ir é "padrão das descobertas"!

2008-07-20

len fox

novo blog

2008-07-04

(anti) divino sospiro


- está cansado ... dum dia de trabalho neste calor?
- não. este é o primeiro serviço que faço hoje. estou é muito preocupado com o meu gatinho.

2008-06-30

viva o MFA!

- sempre fizeram alguma coisa. então e as pensões? antes do 25 de abril havia muita gente que não tinha qualquer pensão de reforma...
- não fizeram nada, isso já havia...
- mas não era geral. então e o serviço nacional de saúde que foi uma coisa tão importante..
- isso não foram eles que fizeram, isso foram os soldados!
- ah mas como os soldados em boa hora entraram na política passaram a ser políticos. foram soldados-políticos...
- sim está bem, nesse aspecto... mas depois quando entregaram isto aos políticos verdadeiros veja no que deu, tem sido assim nada, não têm feito nada por nós há quase quantenta anos. é só eles a encherem-se, a eles e às famílias deles.

2008-06-08

prática masculina

- é que as mulheres são muito mais agressivas a guiar do que os homens...
- ai acha isso? eu por acaso tenho uma opinião contrária. mas se calhar não se pode é generalizar ...
- eu não digo que elas não guiem bem. a mulher até é um bom volante - é justo que se diga. agora, são é mais agressivas que os homens. se elas acham que têm prioridade avançam... e prtestam, zangam-se. há-de ver nas passadeiras, as mulheres nunca páram bas passadeiras. tem que ver com a natureza delas. sabe o que é, a mulher é muito teórica...

2008-06-05

grémio, stop

- é para a rua da arrábida se faz favor.
- isso fica...
- é uma rua estreitinha que desce da silva carvalho para o rato.
- oh eu queria era ir para o outro lado, para perto do aeroporto...
- então mas se quiser eu saio e tomo outro táxi... estão aqui tantos na praça.
- não, nós não podemos recusar clientes.
- está bem não é o senhor que me recusa sou eu que vou noutro.
mas ele não me deixou sair e a viagem começou.
distraída pela incessante conversa sobre o azar que só ele, entre os colegas, tinha sempre pousada em cima da cabeça - se queria ir para leste aparecia um cliente que ia ir para oeste, só lhe apareciam serviços pequenos, ou para sítios onde não havia ninguém pelo que tinha de voltar vazio ("que faziam o cabrazão do patrão, que levava o dia a dormir sem fazer nada, a acusá-lo de fazer quilómetros a mais), nunca lhe aparecia ninguém com mala para o aeroporto ("os 1,60 da mala são para mim e não para o patrão") - não reparei que na praça de espanha tínhamos virado à direita, e não à esquerda, como é costume, nem que, na auto-estrada, não tínhamos virado à direita e descido para campolide, outro itenerário possível.
ao dar por mim a rolar em grande velocidade na av. de ceuta, interrompi-o:
- mas para onde é que o sr. está a ir?
- deixe estar que vai bem, subimos ali onde era o casal ventoso e estamos lá num instante. mesmo quando venho buscar o meu sobrinho, que vive na rua maria pia, venho sempre por aqui - não tem transito nem sinais e é sempre a direito. não está a ver o caminho que eu digo?
- não, não estou.
quando depois de uma subida íngreme e cheia de curvas aportámos finalmente à rua maria pia, o taxímetro marcava 6,70 e ainda faltava muito caminho para andar.
- o sr. não queria vir para este lado e resolveu compensar-se dando esta volta enorme...
- a senhora não pense isso de mim, eu juro pela saúde dos meus filhos.
- não penso nada, só sei é que faço este caminho duas vezes por semana, a esta hora, e nunca pago mais de 5 euros e muito pouco... tinha feito melhor em ter-me deixado trocar de táxi...
primeiro foram os protestos indignados mas moderados - como é que eu havia de pensar tal coisa dele. depois as desculpas esfarrapadas mas educadas - tinha-se enganado como qualquer um se pode enganar. finalmente, e já perante os sinais proibidos na saraiva de carvalho, que nos impediam de virar para a ferreira borges e depois, na ferreira, nos impediam de virar à direira para a rua da arrábida, desligou o taxímetro.
a electricidade no interior do veículo era relativamente elevada quando entrámos na joão V, e talvez por isso ele esqueceu-se de virar à direita apesar de me vir a repetir a necessidade de "apanharmos já a rua dos alunos de apolo". travagem brusca, viragem quase contra um outro carro e em fundo "mas deixe estar que eu levo-a mesmo à porta".
à desfilada pela rua silva carvalho adiante voltou a falhar a rua da arrábida, à esquerda.
- era ali, era ali. mas olhe eu fico mesmo aqui.
- não, não eu levo a senhora mesmo à porta.
em marcha atrás chegámos mesmo à porta. a porta estava fechada. bati durante bastante tempo e ninguém abriu. afinal o azar era generalizado, o motorista não estava sozinho no mundo.

para chamar a polícia

motorista novo e despachado, fazia gosto em mostrar-se viajado e informado por oposição a nós portugueses que, por não sairmos daqui, pouca ou nenhuma informação tínhamos sobre o mundo. a área do conhecimento na qual, segundo ele, mais atrasados nos encontramos, é a da segurança. espanta-o particularmente o facto de não termos informação sobre algumas questões básicas.
- por exemplo, "você" sabe qual é o número da polícia?
- o 112?
- não isso é a emergência. se "você" estiver aflita, durante um assalto e quiser ligar para a polícia basta escrever polícia no telemóvel e fica logo em contacto com eles.
- a sério?
- claro, as pessoas é que não sabem.
na ânsia de me transmitir mais informação útil, passou por cima da minha pergunta "mas onde e como é que o senhor aprendeu tal coisa?", para voltar a testar a minha ignorância
- e "você" sabe o que fazer se for apanhada numa máquina multibanco ou se for forçada a ir a uma para levantar dinheiro para o ladrão?
- não faço ideia...
- vê?! e é tão fácil. só que as pessoas não sabem. basta marcar o seu código ao contrário, de trás para a frente. a máquina alerta logo a polícia.
- verdade?
mal me apanhei cá fora, e ainda espantada pelo seu conhecimento, sobretudo se comparado com a minha ignorância, fiz ouvidos moucos aos prudentes e insistentes conselhos filiais para não maçar a polícia e escrevi p-o-l-i-c-i-a no telemóvel, preparada para pedir logo desculpa ao sr. guarda dizendo que me tinha enganado. infelizmente começou por dar sinal de ocupado e depois desligou-se.
convencida de que não tinha conseguido falar com a polícia só porque não tinha posto o acento no i (o meu tm só tem teclaro inglês) dirigi-me entusiasmada para o multibanco da loja de conveniência em frente. aí, contudo, a minha filha impediu-me fisicamente de fazer a segunda experiência da noite com medo que o polícia, ao vir ter connosco, deixasse o colega sozinho na esquadra ou não fosse socorrer uma pessoa em perigo real por força da minha vontade de experimentação.
eram duas da manhã quando cheguei a casa e a primeira coisa que fiz foi ligar para o banco. depois de uma breve introdução fui direita ao assunto. mas, para grande tristeza minha, a resposta foi peremptória: "não minha senhora, nunca ouvi falar nesse sistema, nem em portugal nem em espanha."

para poupar no irs

o motorista era um homem de 44 anos licenciado em gestão. apesar de não ter gostado nada de contabilidade, enquanto estudante, tinha agora, a meias com a mulher, a contabilista da família, um gabinete de contabilidade. aproveitou a viagem (ou fui eu que a aproveitei?) para me ensinar alguns truques legais destinados a poupar no irs. por exemplo, se se comprar lenha, deve-se guardar o recibo pois o valor gasto pode ser descontado na rubrica "energias renováveis". só que, segundo acentuou, "é preciso é ter lareira"!

2008-04-30

o caçador

- a minha vida é sete rios, campolide, aqui esta zona, tudo cá para cima. nunca vou lá para baixo.,,
- mas porquê?
- então há mais táxis. além disso anda-se menos e eu ando sempre dum lado para o outro, comigo é só ruas de combate...
- de combate?
- então é onde posso apanhar um cliente mal largo o outro. ainda na semana passada, numa formação que fiz, me perguntaram se eu era alérgico às praças...
- e é?
- oh minha senhora se eu estivesse lá parado não ganhava para comer. isto só dá se se fizer 10 euros por hora. ora eu faço 25 é só fazer as contas. esses parados nas praças são capazes de esperar lá 1 hora e depois ficam chateados se lhes calha um serviço de 4 euros. não é todos os dias que lhes aparecem serviços para oeiras... mas isso é lá com eles, cada um caça com o que quer, uns é com... como é que diz, gato outros com cão.
- então desculpe lá o tamanho reduzido da minha viagem.
- ora essa, a senhora não tem nada que pedir desculpa, a senhora tem é de ir para onde quer ir e de ir bem. se o motorista não parar, depois de largar um cliente, se continuar a andar aí à caça nas ruas acaba por apanhar logo outro eliente...

2008-04-10

taxi inteligente

- eu cada vez estou mais encantado com este carro. olhe bem para este limpa pára-brisas!
- ?
- então ele percebe quando começa a chover mais e passa a andar mais depressa. veja lá agora...
- pois é, parece fantástico.
- é um carro com uma tecnologia espectacular. eu só o guio há uns dias e ainda o ando a descobrir. ele sabe, por exemplo, que a pessoa que está sentada aqui à frente não pôs o cinto e começa a apitar mal eu arranco.
- se calhar é um carro inteligente - como aqueles edifícios sabe os
- veja agora, veja agora a brasa do limpa pára-brisas!
- !
- e agora se eu o desligar, ou assim, olhe... se eu o puser no mínimo, vai ver. viu? ele já percebeu que está a chover muito e começou a andar mais depressa.

no dia do tornado

na minha experiência de passageira, o tópico mais frequente para início de conversa com o motorista, é o tempo que faz e que, na nossa opinião, poucas vezes é o que devia fazer.
- já viu isto (queria eu dizer chuvadas e ventanias) depois dos últimos dias de verão?
- é isto que faz mal à gente. então para as tendinites é terrível. eu, que já apanhei várias tendinites, uma delas demorou não sei quantos anos a passar, sinto logo. tudo começa com um sinalzinho no peito. eu noto logo na respiração...
- o quê a tendinite?
- não, a mudança de tempo

gonçalos e leonores


- os gonçalos são terríveis, mesmo terríveis...

- é o nome do seu neto?

- é. e as leonores? isso então nem se fala...

não há direito

- então há lá direito que uma pessoa com 50 táxis pague o mesmo imposto que uma pessoa que só tem um?
- então se a pessoa fizer de lucro, essa dos 50 táxis, sei lá, 50 mil contos e outra, que só tem um, 500, pagam ambas o mesmo?
- ai pagam pagam.

leão, políticos e mendigos

- estranho, tão pouco trânsito a esta hora
- isso é aqui... na avenida da liberdade está tudo parado. e a avenida da república também está cheia. a senhora tem sorte... olhe, até os sinais estão abertos... há-de ser do sporting, não?

do mundo do futebol, onde vivia este sr. motorista, que seria sempre um "leão"(mesmo que eles passassem para a terceira divisão"), a conversa deslizou naturalmente para o da política, mundo no qual este leão nunca tinha posto o pé (nem alguma vez havia de pôr) por considerar a política a pior "coisa que tinha sido inventada nos últimos tempos".

- não sei se a política será assim tão má... agora uma coisa recente é que ela não é. .
- mas dantes não havia políticos nem tínhamos partidos.
- tínhamos um...
- mas esse não era partido, era inteiro. e não havia políticos - por isso andávamos bem governados. os políticos é que é o pior que há no mundo. e são todos iguais.
- também não sei se serão assim todos iguais...
- então não são?! já viu algum que tivesse saído do governo para vir para a rua
mendigar? algum que tivesse sido político d que depois viesse cá para fora pedir esmola?
- não, de facto nunca vi.

2008-02-24

leitura

um livro a ler.
a começar
por mim -
que ainda só
tive hipótese
de o folhear
numa livraria

este
livro
tem
um
blog
que
fica
aqui

2008-02-20

comodismo individual

e no entanto assunto não falta: do motorista astrólogo que descobre os signos dos passageiros ouvindo as conversas que eles, alheados da sua presença, descontraidamente mantêm entre si; do motorista teimoso com o qual perdi uma aposta a respeito do melhor (maior rapidez, menor preço) percurso já não sei para onde; e pelo motorista distraído que por se enganar no caminho me deixou onde eu queria ficar e não para onde queria ir; até ao enigmático comentário, "a senhora sabe como é que costumo chamar a isto? é comodismo individual", ouvido numa deserta madrugada da av. da liberdade, ao mais plácido dos motoristas (corpo pesado, voz vagarosa, condução contida), ao encontrar, num sinal vermelho, um carro parado a meio da faixa (o que lhe dificultou o acesso à linha da frente).

viagem de táxi com magritte

eu é que não tenho merecido os taxistas que me vão cabendo em sorte. ora entro com os olhos cheios das cores e formas do nikias, sobretudo da série 'quartos imaginários', em torno da qual o jorge silva melo fez o filme que acabo de ver estarrecida. ora saio com os olhos vazios seja do que for excepto dos farrapos cinzentas que neles flutuam na horizontal ou dos fios pretos que por eles deslizam na vertical.

para a rva (da rva)

outros passageiros "vêem" os taxistas que os conduzem. outros passageiros habitam o espaço e o tempo (isto é, o universo) da viagem comum. outros passageiros merecem os seus taxistas.

esta foto foi tirada daqui onde foi publicada e dedicada a uma MT!

2008-02-04

olhe diga-me uma coisa, os seus bolos são frescos?

mal tinha acabado de perguntar ao motorista se tinha mesmo instalada no taxi uma câmara de filmar, já realizava a estupidez da pergunta:
- que ideia a minha. não me conhecendo de parte nehuma, o que é que o sr. havia de responder? não, claro que é só a fingir, pode roubar-me à vontade que nada fica gravado! desculpe lá a minha estupidez...
- não faz mal. também olhe que filmar ou não filmar um assalto não interessa nada pois não vale cono prova tribunal.
- ora essa!?
- mas é como eu lhe digo. eu aqui há tempos estava na praia a dormir e uma mulher roubou-me a carteira
- mas se estava a dormir como é que viu que era uma mulher?
- espere lá que isso é que é o resto da história...
com o cartão do banco foi à fnac e de uma vez fez compras n valor de 900 euros e noutra de 600
- era uma ladra muito dada à leitura!
- qual leitura, na fnac não se compram só livros. ela conprou foi telemóveis para depois vender. uma mulher com uma filha pequena pela mão! uma desgraçada que vive num bairro cheio de problemas.
- mas como é que o senhor sabe isso tudo?
- oh minha senhora então porque ficou tudo gravado nas câmaras. só que depois, no julgamento, não serviu para nada, só se se for apanhado em flagrante delito. as gravações, dizem eles que não servem de prova. eu ainda cheguei a ir a casa dela mas a miúda disse que a mãe já lá não vivia. também... olhe era uma desgraça.
- o quê tinha medo de perder a cabeça e de lhe dar uma surra?
- não, a desgraça não era minha. ela é que era uma desgraçada. estivesse em casa ou fosse condenada tanto fazia, onde é que ela ira arranjar dinheiro para pagar fosse o que fosse?
- talvez com o lucro da revenda dos telemóveis...
- isso já ela tinha queimado tudo em droga! neste país não há nada a fazer...
- sempre vai havendo, então aqui pelo menos dentro do táxi,
mesmo que o senhor esteja ferrado a dormir, nenhuma "passageira" o pode assaltar sem ficar gravada "em flagrante delito".
- aqui não entram elas. mal vêem o anúncio, no vidro, de que está sob vigilância, já não entram no carro.
- olhe eu só vi já cá dentro... mas há muitos táxis com isto?
- poucos porque sai muito caro, é o gps e mais não sei o quê e mais o serviço à optimus que se faz pagar bem
- desculpe lá deixa-me tirar uma fotografia? é que um tenho um 'bloguezinho' sobre as minhas viagens de táxi e gostava de lá registar esta novidade.
- com certeza que pode. tem é de me escrever o nome e a morada do blog.
escrevi e agradeci o interesse. foi a primeira vez. era um homem novo, educado, simpático e, pareceu-me, particularmente cordato.

2007-10-16

reeducação de primeiros-ministros

- eles estão sempre a dizer que a fazer asneiras é que se aprende mas depois não aplicam a máxima uns aos outros...
- o que é que quer dizer com isso?
- então o santana lopes não fez tantas asneiras enquanto lá esteve?
- lá isso é verdade não fez mesmo mais nada.
- e não foi corrido por essa razão? então deve ser o que mais aprendeu até agora. ele é que devia dar um bom primeiro-ministro, com tudo o que aprendeu...
- lá lógico, pelo menos do ponto de vista formal, o seu raciocínio parece ser. mas sound duvido um pouco.

tentativa de homicício

- a senhora parecia que me quer matar...
- oh valha-me deus que estupidez a minha, o senhor desculpe. peço-lhe mesmo desculpa. é que não vi que trazia o guarda-chuva espetado para a frente...
- para a frente e para mim.
- mas que horror. é que eu nem sei como lhe hei-de pedir desculpa. mas magoou-se no olho? e os óculos veja lá se acertei e estraguei alguma coisa.
- foi por pouco...
- é que eu não costumo...
- bater nos motoristas de táxi?
- não, entrar assim num automóvel com o chapéu de chuva empunhado na direcção do seu condutor.

foto retirada daqui

2007-10-11

não sei se faz sol se chove

- sabe, então não sabe. há tantas palavras iguais: porta, bom-dia, ...
- ah sei uma - 'rabaxi' sabe?
- sei claro. em castelhano também não há essa palavra. só em catalão.
- e depois também sei o resto de uma cantiguinha - também ensinada pela senhora de que lhe falei - que acaba com "no se si fa sol si plo".

o preço das auto-estradas

- mas como é que foi capaz de trocar espanha por portugal, sobretudo vindo da catalunha?
- sabe é que há 18 anos, quando eu casei e resolvemos ficar aqui a situação era muito parecida...
- sim mas entretanto as coisas mudaram e de que maneira!
- eu não digo mal de portugal...
- mas pode dizer.
- não digo. nem tenho razão para dizer. os portugueses é que estão sempre a dizer mal de portugal. eu estou bem cá. fiz a minha vida, ganhei dinheiro, é claro que me saiu do corpo mas tenho uma boa vida.
- e agora com as auto-estradas vai muitas vezes a barcelona?
- vou. e é divertido porque gasto mais dinheiro para ir de lisboa a badajoz do que de badajoz a barcelona...

2007-09-22

ricos mas grossos

- e isto não é nada... havia de ver isto de madrugada, quando eles começam a ficar todos bêbados.
- não sei, de facto nunca vi de madrugada mas agora mesmo, no táxi do seu colega, não era só não se poder entrar. é que eles estavam sentados no em cima, à frente, atrás. o motorista, lá dentro, parecia estar sequestrado no meio desta turba ululante de miúdos.
- então eles saem cá fora e põem os copos e as garrafas no tejadilho...como se não estivesse ninguém dentro do carro nem nós não estivessemos a trabalhar...
- mas e nunca nenhum dos senhores saiu do carro para dar um tabefe a um desses meninos?
- houve uma vez um colega que arrancou com o carro e partiu-se o que estava lá em cima. quando ele saíu para fora houve pancada e tudo. um deles até era o filho daquele advogado X muito conhecido. agora está tudo em tribunal. o problema é eles embebedarem-se...
- não sei, se calhar o problema está mais na má-criação do que na bebedeira.
- lá isso é verdade. assim como há bêbados mal-educados também os há bem-educados... mas olhe não são estes meninos das famílias ricas e finas!

2007-09-06

taxi e psicanálise

"Quand je prends le taxi, soit le chauffeur parle beaucoup, soit c’est moi qui l’abreuve de paroles, soit c’est le silence. Le taxi peut devenir, le temps d’un trajet, l’occasion de s’offrir une «petite psychanalyse» (ênfase da passageira). esta descrição da viagem de táxi, com a qual estou inteiramente de acordo, é do realizador de "trés bien merci", um filme no qual uma das personagens principais (Béatrice), sendo motorista de taxi tem o trabalho ideal para tomar o pulso a uma cidade e à sociedade em geral

2007-09-05

taxi festival 

festival 
internacional 
do taxi
 

decorre 
em  lisboa
durante  todo  o
mês  de  setembro

tudo no site do festival 

taxis e taxistas no cinema

"Meio de transporte urbano por excelencia, o taxi ocupa um lugar de destaque no cinema de qualquer pais. Local de passagem, ou de transicao de um espaco dramatico para outro, esta, muitas vezes, fortemente associado a propria intriga dramatica. Com mais frequencia como meio de perseguicao, gerando, inclusive, um cliche bastante parodiado (o taxi que segue outro taxi, perante o entusiasmo do motorista, que se ve transformado em personagem da intriga, sem esquecer o taxi que surge “milagrosamente” da esquina a um assobio do heroi!). Mas pode ser, inclusive, o proprio campo do drama, de crimes misteriosos (O TAXI 9297, de Reinaldo Ferreira) ou de absurdos e sangrentos actos de violencia (DINA E DJANGO, de Solveig Nordlund, e o tragico episodio do DEKALOG de Krzystof Kieslowski a volta do mandamento “Nao Mataras”, que reflectem uma dramatica realidade que encontramos com frequencia nas paginas dos jornais). Em colaboracao com o Festival Internacional do Taxi, organizado pelo Institut pour la Ville en Mouvement, e que decorre em Lisboa neste mes de Setembro, a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema organiza um Ciclo que tem este meio de transporte como “actor principal”, reflexo da “cidade em movimento”, com uma serie de filmes onde o taxi, ou quem nele trabalha, tem uma forte funcao na narrativa, surgindo ora como um autentico microcosmo social, com o permanente desfile de passageiros, de que o exemplo mais sugestivo e o filme de abertura, o classico de Martin Scorsese, TAXI DRIVER (que encontra um reflexo documental no trabalho da holandesa Heddy Holigman, METAAL EN MELANCHOLIE), ou como “palco” de comedia em duas divertidas comedias sentimentais, THEY MET IN A TAXI e PECCATO CHE SIA UNA CANAGLIA. O Ciclo continuara no mes de Outubro. Mais taxis. O titulo da retrospectiva e extraido de uma replica celebre de Stan Laurel (“O Estica”) a Oliver Hardy (“O Bucha”). Este, pressionadissimo e em apuros, pede ao Estica, que nada percebe do que se esta a passar: “Chama-me um Taxi”. Imperturbavel, o Estica vira-se para ele e responde: “Tu es um Taxi”." (texto retirado da programação da cinemateca poruguesa)

2007-08-27

primeiro-ministro


P. desculpe?
T. estava a dizer que os beijinhos é só quando precisavam. depois só nos
desprezam. a mim não, porque eu não lhe bato...

noventa e nove por cento

T. lá estão eles todos à espera...
P. mas é de facto aqui que vive o primeiro-ministro?
T. então não é?! não sei é para que é que ele precisa de tantos guarda-costas.
P. não sei, é de regra...
R. oh minha senhora neste país ninguém faz mal a ninguém. até parece que quanto mais nos batem mais a gente se encolhe.
P. talvez haja alguma razão no que o senhor está a dizer...
T. noventa e nove por cento.

2007-08-20

sem com versa

em blog alheio ao mundo dos taxicabs, a passageira encontrou este post ao qual acrescentou este comentário
se calhar o tipo tinha visto, no último tarantino, o gozo frenético mas punitivo das heroínas (o bem) a baterem na traseira do carro do vilão (o mal). ou então limitou-se a verbalizar fantasias de todos (?) os condutores de automóveis, coisas que, como se sabem, facilmente se deixam usar como instrumentos fálicos de agressão. o ps, se pensar na profissão lixada (para evitar o uso da palavra mais apropriada neste caso) do 'seu' motorista de taxi e a comparar com o salário e outras compensações (materiais ou intelectuais) que ele recebe por ela, talvez desculpe, ao edil que nele (tão bem) detectou, a violência da política municipal.

2007-08-13

sem título

do paradise driver
It was a night of action, adventure and excitement. For everyone, except me.
...
Later in the evening I picked up a nice family out of El Lay from Safeway back to Wailea. They expressed an interest in living on Mau'i when they reached their sunset years. I told them that it is not as idyllic as it seems from a tourist POV. On any given day 100 people move here from the mainland. One year later maybe 1 of those is still on Mau'i. They can't adapt to the culture shock. We are the richest "third world" nation and the operative phrase is "THIRD WORLD". The way things run here is like nowhere else in America. I've harped on this before, as my regular readers are aware. Mau'i is not Lodi nor Springfield and is definitely not El Lay, "Shy Town" or NYC. Anyone thinking about living here should probably take an extended leave-of-absence before selling the ol' family estate. Come and rent a place for a year before casting your lot. This way you have something to fall back on when everything goes to hell-in-a-handbasket.
...
Well, I made it through the week. I sure hope this Quasimodo hunchbacked stance I've developed starts fading over my days off.
I know, I know. Life's a bitch and then you die.

"fun times"

do newyorkhack
I had a good night.
...
All night long, each good ride led to the next.
...
As I passed Columbia on my way back downtown, I got flagged by a very pregnant, thirty-something lady dressed in hospital scrubs and a stethoscope. She had a phone to her ear and, when she got in, said, "59th and Amsterdam." But then a second later, she said, "Actually 59th and 3rd." And then another second later, "Let's make that 59th and Lex."
Finally she hung up the phone and said, "I'm sorry. My husband was barking orders at me on the phone."
We didn't talk for the rest of the ride.

sem título

do fogareiro
Troquei uma «corrida» por um livro de poesia. Foi assim: o Nuno Silva, um bom amigo e agora também editor (Sombra do Amor), telefonou-me para transportar o último livro do jovem poeta M. Tiago Paixão («l´étranger the outkast ou o quarto sem ar»). No final da «corrida» fiz-lhe uma proposta: ele não pagava o serviço do táxi e, em contrapartida, eu ficava com um livro, autografado e tudo pelo autor... Já li e tirei uma conclusão: fiquei a ganhar!

"Vuelta al trabajo : Terremoto"

do taxista de madrid
Vuelo a trabajar después de unos días de vacaciones, y Madrid está...vacío. No hay nadie en este agosto a pie de puente y de primera quincena.
Los pocos clientes van a aeropuertos ó estaciones. Uno de ellos me dice:
-- Me voy de vacaciones. Lo siento por los que vuelve.---
Y me tengo que callar las palabras.
¡Qué duro es volver cuando media ciudad esta de vacaciones ¡
Será por eso que a las 9.47h tembló la tierra en Madrid y media España. Creo que no ¡ Pero no estoy seguro que mi cabreo interior no se trasmitiera a estrastosfera, rebotara, cayera en Ciudad Real, y sus vibraciones llegaran hasta Madrid.
Lo que me faltaba : terremoto.
Claro que no lo he notado ¡¡

"inspiração para palestra"

do taxitramas
O passageiro embarcou no táxi com uma expressão muito séria. Informou o local onde desejava ir e não falou mais nada. Parecia preocupado. Achei melhor não puxar assunto.
Sem dizer nada, ele estendeu o braço e pegou um dos exemplares do meu livro, que sempre deixo em exposição sobre o painel do carro. Como o subtítulo diz tudo - "Diário de um taxista" - , resolvi não falar nada.
O homem escolheu uma página qualquer e pôs-se a ler. Com o canto do olho, fiquei controlando as reações dele. Meu passageiro parecia estar preso ao texto. Aos poucos, suas feições foram descontraindo. Mais tarde, já com um sorriso nos lábios, mas ainda sem dizer uma só palavra, ele recolocou o livro no painel.
Curioso, não resisti e perguntei o que ele tinha achado. Ele comentou que o livro parecia bom. Disse que, apesar de nunca ter ouvido falar dele, o tal Mauro Castro parecia competente. Por fim, perguntou se eu conhecia o autor do livro. Respondi que, de certa forma, sim.
A essa altura, paramos na esquina da Garibaldi com a Independência. Fiz um sinal de luz para o Wagner, um jornaleiro amigo meu que trabalha naquela esquina. Ele logo me alcançou o Diário Gaúcho. Disse que tinha acabado de ler minha coluna e, como sempre, achava que eu estava mentindo. Agradeci o elogio.
Abri o jornal e mostrei ao passageiro a coluna que trazia a minha foto. Só então ele se deu conta que o taxista ao seu lado era o autor da coluna no jornal e, por conseqüência, do livro. Ficou espantado!
O resto da corrida foi pura descontração. Ele revelou que estava indo para um congresso sobre educação, no qual seria palestrante. Disse que estava angustiado pois, até embarcar no meu táxi, não tinha nada realmente inspirador para falar à platéia.

2007-08-09

o taxista e a taxista

para lá, a passageira teve a agradável surpresa de se encontrar sentada atrás de uma doce cabeça feminina, de cabelo muito claro, à qual perguntou se era estrangeira. ao que a taxista respondeu que não, que era portuguesa e que a claridade do cabelo provinha da idade e não da nacionalidade. para cá, deparou com umas terríveis trombas masculinas, e, depois de entrar, contra-feita, num carro parado a contra-gosto, lá teve de lidar, muito contra-riada, com um taxista sempre muito contra-produtivo.
- a avó achou que este senhor era bem educado? perguntou a minha m. à saída.
- uma verdadeira besta, respondi desabrida.
- ele assim não pode dar bons exemplos aos netos, comentou, sempre filosófica, a minha m.
como contra-ponto contei-lhe a história da senhora taxista referindo que, em contra-partida, ela era a boa-educação em pessoa.


2007-07-26

posto de observaçao

descoberto novo blog de taxista com o sugestivo nome de cabs are for kissing. a conduzi-lo alguém que há muitos anos observa e pensa (pelos vistos até fotografa) pessoas que se vêm cruzando com ele, ao longo do tempo, em manhattan. na foto, um desses 'outros' que, por se destacarem da multidão, ele reconhece e pelos quais se interessa. outros cujas vidas ele só pode fantasiar, incapaz, por delicadeza, de os abordar e perguntar quem são, o que pensam, fazem e sentem.

2007-07-25

pelo sim pelo não

os motoristas de táxi guiando carros com o número 666 não perdem nada em ler este post, escrito por um seu colega londrino, a respeito dos perigos incorridos pelos taxistas condutores de viaturas às quais a sorte (ou o azar...) atribuiu o que se diz ser o número do demónio. na foto, o presidente do que parece ser uma antral local (são francisco, wherelse?), vestido a rigor, durante o julgamento que recusou a petição de michael byrne para não usar o número satânico, já recusado no ano passado por outro motorista.

2007-07-22

viagens


no taxi de nuit
aparece uma bela história.

2007-07-17

book update


taxistas e passageiros get ready,
é já em agosto que sai o livro da
melissa.
e é uma edição encadernada!

2007-07-11

carteira


T. dantes tinha-se a carteira profissional pelos anos agora é pelo euros...
P. e quem é que vos dá a carteira?
T. dantes era a direcção geral de viação, agora é antral. mas não lhes iteressa saber se a pessoa tem cadastro, se é equilibrada aou desiquilibrada, nada. desde que pague e vá lá aquela meia dúzia de vezes exigida para fazer a dita formação, já está com a carteira profissional nas mãos.

2007-07-03

o zé e o manel

P. desculpe lá se preferia ir por campolide. mas sabe que eu sou muito como os burros, vou sempre pelo mesmo caminho...
T. a senhora agora lembrou-me uma história que o meu pai contava. antes de ele vir para lisboa, onde era estivador, tinha sido pastor na serra da estrela. e na aldeia dele havia um ti-zé que tinha um burro que era o manel. ele gostava muito da bebida e nos dias em que estava mais pingado adormecia na carroça e era o burro que o levava para casa. uma vez ou outra o gnr via a carroça um bocadinho fora de mão ou não sei quê e mandavam parar. o ti zé acordava meio estremunhada e acusava o burro. ele não tinha culpa nenhuma, vinha a dormir, o manel é que vinha a conduzir por isso eles que multassem o burro. um dia, já estava chatiado de pagar multas, resolveu chatiar a gnr que ele sabia que estava a fazer uma operação stop. meteu o burro em cima da carroça e pôs-se ele a puxar por ela estrada fora.

silêncio

passageira pouco à altura dos motoristas de táxi que a levam para e por onde ela lhes pede. envolvida com as suas próprias ideias, falta-lhe espaço interior para as ideias alheias.

2007-06-26

donos e empregados

T. a senhora há-de reparar que todos os velhotes, sabe dos que eu estou a falar, os mesmo velhotes, 99,9% deles, vão sempre pelos trajectos com mais sinais e mais trânsito...
P. mas porquê os velhotes?
T. porque são os donos dos táxis. aos donos é que interessa o pára-arranca. para os empregados, que ganham à comissão, o que é bom é andar. por exemplo a mim agora o que me interessa é despachar a senhora o mais depressa possível para apanhar logo outro passageiro. olhe ali estava um...
P. oh diabo, que maçada. eu até podia ter saído ali, é tão perto da minha casa...
T. oh minha senhora, por amor de deus. a senhora sai exactamente onde quiser e quando quiser. quero lá saber do serviço...
...
P. então boa-noite e espero que agora, despachada esta passageira, apanhe logo outra!

tv on board

quando entrei julguei que o taxista tinha o rádio ligado numa estação brasileira. passado algum tempo, percebi que não era música o que o ele tentava ouvir, todo inclinado para o lado direito, mas uma conversa entre várias pessoas. em certo momento, algumas gargalhadas do taxista, despertaram a minha curiosidade. pus-me então à escuta, concluí que se tratava de uma espécie de teatro radiofónico e tirei a minha atenção daquilo em que o taxista punha a sua. chegada ao destino, inclino-me para a frente em busca do taxímetro e no lugar onde o imaginava vejo uma televisão a cores transmitindo uma telenovela brasileira. estava explicada a 'ausência' do taxista bem como a estranha postura do seu corpo, meio inclinado para a direita, os olhos movendo-se permanentemente da estrada para o 'rádio'. desta viagem fiquei com uma dúvida, não sei se existencial mas decerto vital (para a própria existência de taxista e passageira alike): se é legal ver televisão enquanto se conduz, porque raio há-de ser ilegal falar ao telemóvel?

2007-06-22

zé costa


T. é o o sá fernandes. ele achava que escondido tinha mais possibilidades de ganhar...
P. escondido como?
T. então, sem dar a cara... mas quem vai ganhar isto é o zé costa!

2007-06-20

praça

T.1. eu já transportei a senhora...
P. como está? eu também me lembro muito bem da sua cara.
T.1. não me lembro é para onde... mas já transportei.
T.2. para a alvares cabral!
T.3 para onde é que vamos?
P. então, é para onde disse aquele seu colega mais novo. é bom ser assim bem recebida.

2007-06-19

SOS

passageira procura o motorista de táxi, de seu nome domingos barros, que a transportou, no sábado 17 de junho, por volta das 11 da noite, entre a av. antónio augusto de aguiar (mais em menos em frente ao corte inglês) e a avenida alvares cabral. se por acaso passar por aqui, acidentalmente ler este apelo, e, por mera coincidência, conhecer a pessoa em causa, peço-lhe, encarecidamente, que lhe dê a morada deste blog.

2007-06-16

para cá: reencontro

P. ando a fazer um pequeno inquérito...
T. a senhora já me perguntou... não é a senhora que eu transportei outro dia...ia para uma aula...?
P. ah que já o estou a conhecer... mas que engraçado voltar a encontrá-lo!
T. a nossa conversa foi tão interessante, eu até contei à minha mulher, "vê lá tu que hoje transportei uma senhora que está a fazer isto assim assim...". eu tenho este hábito de contar o dia, quando chego a casa. não é tudo - há assim umas pessoas que entram e saem, mas há outras que me ficam...
P. também eu contei aos meus alunos que o tinha ensinado a dizer 'café' em chinês...
T. foi tudo muito engraçado. sabe que eu até depois fiz a pergunta à minha mulher e ela também disse que era o zé povinho. se quiser pode juntar mais esta resposta.
P. é que junto com certeza! foi um prazer revê-lo e tenho a certeza que nos havemos de voltar a encontrar

para lá: (des)encontro

T. já não é a primeira pessoa que me faz essa pergunta mas eu não lhe sei responder. ao princípio achava que era o josé sá fernandes mas depois percebi que não porque ele é 'josé' e este é 'zé'.

leitura recomendada

destes três livros, todos com origem nos blogs pessoais dos seus autores - motoristas de taxi - só o da melissa ainda não saíu (mas já pode ser pre-encomendado!)
taxi de nuit
taxitramas



2007-06-15

o zé é verde?

T. eu acho que não tem significado nenhum. aquilo é dos verdes, que tenho impressão que fizeram coligação com o pc. é de um candidato que, à partida, sabe que não vai ganhar...
P. acho que só o cartaz é que é verde. o zé não me parece que seja...
T. só quem percebe de política é que sabe quem ele é... mas há-de ser aquele que está encabeçado, que vai à frente nas eleições... olhe afinal é do bloco de esquerda, tem a estrela. e tem lá um nome. mas não se consegue ler...

foto de RVA

2007-06-12

(in)certezas

P. olhe, neste consegui ler um nome, virgílio castelo...
T. então o zé faz falta é um actor e um grande actor não haja dúvida, já tem muitos anos de actor. até tem 2 filhas da alexandra lencastre...
P. e é bonito...
T. é simpático - até fazia aquele programa à tarde para rir. então estávamos a perceber mal. eu não via lá sigla de partido nenhum, estava a achar muito estranho. só se será por aí algum filme que ele vai fazer... é isso de certeza. é um filme que ele vai fazer, de certeza absoluta.

2007-06-09

o zé e a fome


P. acha mesmo que sim?
T. esse zé... oh minha senhora esse faz tanta falta como a fome...

a falta do zé

T. primeiro achei que o nome por baixo era do autor da frase, mas depois vi que eram diferentes. não me lembro agora de nenhum. devem ser não sei, escritores e ... poetas, desse partido.
P. está bem ... mas quem é o zé?
T. há-de ser o zé povinho ...
P. certo, mas porque é que o zé faz falta?
T. o zé faz falta porque se não fosse o zé muitos deles não se governavam...

2007-06-08

o zé gato

T. eu também não faço ideia. mas posso arriscar...
P. está a brincar comigo não está?
T. não sei mesmo. mas como lhe estava a dizer posso arriscar - será alguém lá do partido que se chama josé?
P. mas não sabe mesmo a sério?
T. não faço ideia. mas acho, sei lá, tenho pensado é que possa ser lá um deles...
P. sim, é o josé sá fernandes, o candidato à câmara...
T. ah afinal eu tinha razão, sempre é alguém do partido deles. agora como é que havia de saber que era o sá fernandes se eu nem sequer sabia que ele se chamava josé? e a maioria das pessoas também não sabem, podem conhecer o sá fernandes, até pelo túnel mas sabem lá bem que ele é josé. pudiam ter posto o nome todo mas lá está, assim, o cartaz já não tinha tanta graça...
P. mas qual é a graça assim como está?
T. é não se saber quem é o zé. porque zé pode ser tanta coisa, até o zé gato...
P. esse não sei quem é...
T. era um guarda-redes do benfica.

2007-06-06

o zé e as praças

P. o senhor sabe qual é o nome por baixo deste zé aqui?
T. este não me lembro, eu sei que há um do barreto. foi o primeiro que eu vi. não me lembra onde é o que vi mas sei que vi.
P. eu vi foi um com a rita blanco...
T. há por aí muitos... ah já sei, o barreto é o da praça de espanha. eles estão mais é nas praças...

zé: povo e religião

P. quem será este 'zé'?
T. isto é um cartaz do bloco de esquerda.
P. pois, eu sei. não sei é quem é o zé - o que faz falta...
T. então o zé somos nós. é o nome mais comum, o zé povo, josé é o povo, a religião...

when the evening ...

T. com tanta conversa já não me lembro para onde é que eu ia...
P. bom, o senhor coitado ia para onde eu lhe tinha pedido.
T. é isso, para onde é que nós iamos...

ton sur ton


modelo profissional experimentando
uniforme desenhado para o meu tek-si...
obrigada!

2007-06-05

flores

T. ele parece é que atira para as flores...
P. o quê?
T. atira para as flores.
P. atira o quê?
T. para as flores, sabe...atirar para as flores
P. mas o que é que isso quer dizer?
T. então é um homem ... a senhora não sabe o que é atirar para as flores?
P. não faço a menor ideia...
T. é um homem... como é que eu hei-de explicar? assim por exemplo, um homem...
P. mas é uma pessoa fazer o quê?
T. não, não é uma pessoa, é um homem... são homens. o que eu estava a tentar explicar à senhora é que são aqueles homens assim...
P. homossexuais será?
T. pois é isso, é ser mariconço! é como se costuma dizer dos mariconços...
P. e eu que nunca tinha ouvido uma expressão tão bonita, tão romântica.
...
P. fico mesmo aqui obrigada, pague-se de 5 euros se faz favor.
T. obrigada e boa noite para a senhora. não se esqueça do 'atirar para as flores'!
P. é que nunca mais...

a noite e o medo

assustados com as sucessivas hesitações do inseguro condutor, agarrávamos-nos uns aos outros, como que para nos protegermos mutuamente, os olhos bem abertos e as bocas fechadas, à espera do pior... de repente, o silêncio é interrompido por um curto e sumido lamento:
T. isto hoje parece que toda a gente se mete à minha frente. até os pombos...

2007-05-31

what a non-'embrulho'!

this is definitely
very good news
for all taxi drivers
around the world...

mt obrigada
sweet rosava!

2007-05-30

solidariedade

2007-05-28

grande reportagem



P. mas que ideia tão simpática esta de ter cá jornais e revistas à disposição dos clientes... e o jornal é sempre do dia?
T. tento que seja. e também as revistas, as últimas. geralmente a sábado e a caras, assim...
P. é realmente fantástica esta sua salinha de leitura. e foi sua a ideia? é que nunca tinha visto nada de parecido...
T. foi, este é o único táxi de lisboa com jornais e revistas, as revistas são mais para aquelas pessoas que ficam tontas a ler em andamento.
P. então podem ler nas bichas, lisboa dá bem para isso. agora só faltava era uma máquina de café... bom, mas a pagar senão os senhores, que já não ganham para o tabaco, iam à falência. não se importa que eu tire uma fotografia?
T. todas as que quiser...

2007-05-26

raiva fiel

P. eu estava mesmo quase a desistir. já passam mais de dez minutos da hora marcada. e depois era uma raiva, só passavam táxis vazios...
T. sabe o que é, são tudo aprendizes... eu já lhes vou dar o chá!
começa a chamar a central e, uma vez atendido, finge, na conversa com a "aprendiz" que ainda não me encontrou, e que vai então à minha procura, numa estratégia admoestativa cujo funcionamento me escapa.
P. que raiva! já pensei em mudar de companhia mas o que é quer, sou conservadora...tenho este apego antigo à autocoop...
T. mas aquilo está muito mal na central. é só aprendizes. e ainda por cima põem-nas a lançar chamadas para o ar a estas horas de ponta. é que elas são tão ignorantes que nem falar sabem ... outro dia era uma que em vez de dizer 'sapadores' dizia 'sopadores'.
P. se calhar vêm de fora de lisboa...
T. tão-se é nas tintas. ainda para mais a chefe delas foi despedida de outra companhia. está ver a competência. aquilo vai por lá uma caldeirada...
P. pelas suas palavras cheira-me mais a 'sopeirada'!

lêgal

P. ...mas sabe porquê? porque se pensar bem as pessoas, em si, nunca são ilegais... não há pessoas ilegais...
T. ilegais ou 'sem papéis', no fundo tanto faz. o que importa é se que eles todos não trabalhassem um dia o país parava. e o sr. ministro não almoçava!

2007-05-22

a via

T. esta rotunda
aqui então é
um poço de porradas...
P. mas porquê?
T. porque ninguém
procura a via.

colombo

T. ... aquele edifício ali está fechado há mais de 20 anos. não deitam abaixo nem constroem nem fazem nada...
P. se calhar estão à espera de que o terreno se valorize...
T. não é isso. há ali é problema qualquer com a câmara. os herdeiros são muitos,não se entendem. um é pobre o outro rico. a câmara queria comprar por uma bagatela... é que aquilo ali puxa, ali é preço de ouro.
P. mas o senhor sabe quem são?
T. sei. a senhora sabe que a obra do colombo esteve embargada dois anos?
P. não sabia...
T. pois esteve, dois anos. é que lá no meio havia um terreno que era meu. o dono comprou o terreno a um indivíduo que o vendeu como se fosse tudo dele. ora 674 metros quadrados, mesmo no meio, eram meus ... que eu comprei a uma velhota. e fez-se a escrita pois está claro...
P. mas como é que o senhor descobriu?
T então nesta profissão ... começo a ver as fundações no meu terreno - os gajos estão a construir naquilo que é meu! liguei logo para ao meu advogado e o advogado embargou logo a obra. eu tinha a escritura dos 674 metros quadrados e o outro vendeu aquilo que era meu. o dono do colombo não tinha qualquer problema, comprou e pagou a 65 contos o metro quadrado. o outro gajo é que teve de devolver-me a mim, a 174 contos o metro quadrado... o construtor ainda tentou continuar a obra fora daquela zona mas mal começava a trabalhar era logo embargado. foram dois anos.. tanto que o dono teve um prejuízo enorme.
P. pois, calculo.
T. a senhora consegue escrever em andamento? a caneta deve fugir de vez em quando...
P. malzote... mas olhe, o que eu lhe digo é que se o sr. não tivesse reparado nas fundações era agora dono de uma bela loja mesmo no meio do colombo...
T. o mal foi eu não ter deixado construir... já dava uma grande embrulhada. e também, já estou como diz o outro, sete palmos de terra chegam...

2007-05-21

marquês seguro

P. desculpe é uma viagem muito curta mas a verdade é que estava com medo de atravessar o marquês a pé a esta hora da madrugada...não há ninguém e está tudo tão escuro
T. mas olhe que não dever haver sítio mais seguro em lisboa. eles puseram para aí tanta câmara de televisão. é câmaras por todo o lado. estão sempre a ver o que se passa... se houver um acidente, em menos de dois minutos já cá está a polícia...
P. mas não é que era proibido, por lei, instalar câmaras de televisão nas ruas?
T. ora, eles dizem que é para controlar o trânsito e já está...

terra maldita

T. ia mesmo agora render...
P. mas então não lhe dá jeito levar-me?
T. não, a senhora por acaso até me fica em caminho... antes de render ainda quero ir ao horto do campo grande que a minha mulher faz hoje anos...
P. ah e vai oferecer-lhe flores...
T. eu nunca dou flores, prefiro oferecer plantas que duram mais. vou comprar-lhe um daqueles limoeiros pequeninos que dão limões todo o ano e flores, às vezes ao mesmo tempo
P. também já lá comprei uma mini romãzeira lindíssima que todos os anos dava romãs e tinha umas flores lindas. mas depois transplantei-a e secou.
T. isso é da terra que eles vendem...
P. mas eu não sei se usei terra deles. mas o senhor acha que a terra deles não presta?
T.não é não prestar. é que mata mesmo. não se pode comprar lá terra. eles misturam uma coisa qualquer que seca as plantas todas. eu tenho um amigo, uma pessoa muito idónea, que sabe o que diz. ele é que me contou essa aldrabice e como é que eles fazem...
P. ah mas fazem de propósito?
T. claro, a terra mata as plantas e as pessoas assim vão comprar mais. a senhora, se lá vai também, nunca compre a terra deles. aquilo mata tudo o que lá se lhe põe...

2007-05-19

embrulhos

T. ... é um vigarista. uma vez até já me peguei com ele. eu tinha apanhado duas espanholas na praça de espanha. elas tinha três malas e quiseram saber quanto é que custava levá-las na bagageira. disse-lhes o preço, 1,60 e elas queriam saber se era 1,60 por mala ou se era tudo um 1,60. lá expliquei que era sempre 1,60 fosse uma mala ou seis ou sete, desde que coubessem. vá que também ppudiam levar uma ao colo não pagavam mais por isso. agora se fosse muita bagagem tinham que ir dois carros. o que é que tinha acontecido? dias antes elas tinham pago, do aeroporto para o hotel, 1,6 por cada mala. pagaram 4,80 e acharam caro por isso é que estavam a perguntar-me, para confirmarem.
- sim mas aí que culpa teve o porteiro da aldrabice do taxista?
- então estava feito com o outro... foi ele que lhes disse, quando elas chegaram do aeroporto, quanto é que custava o transporte da bagagem ... ele fala inglês e espanhol, tudo e sei lá o quê. bom as espanholas estavam mesmo furiosas. quando chegamos, a primeira a sair virou-se logo para o tipo a dizer-lhe que não havia direito que eles a tinha intrujado. depois a outra só insistia que ia fazer queixa dele ao director. e eu a apreciar a cena... bom quando aquilo acalmou ele deitou-me cá uns olhos... ainda hoje me olha de lado. por isso é que eu nunca faço sala. já sei como é. para serviços bons, cascais, sintra são os amigos. os 'embrulhos' ficam para nós...

sem pressa

T. mas a senhora tem ali uma praça...no hotel.
P. eu sei mas o que é que quer deu-me para embirrar com o porteiro...
T. também não vou nada à bola com ele... por isso é que não faço lá sala. é deixar os cliente e vir-me embora. outro dia apanhei um fulano, que era preto, aí com uns, não sei com eles é difícil ver a idade, talvez 30, mala de computador. 'se faz favor é para o marriot'. pronto, tudo bem lá fomos. à chegada, o tipo não veio com pressa
- quê para não abrir a porta ao cliente?
- ou para o chatear... não veio com muita pressa...
- e depois?
- ele ficou sentado à espera que ele chegasse e lhe abrisse a porta...

2007-05-15

(não) são rosas

T. se faz favor não deixe cair migalhas.
P. são uvas...
T. ah desculpe julguei que a senhora estava a comer um bolo...
P. está desculpado. é servido?

2007-05-12

epifania

P. é para a universidade católica se faz favor.
T. mas já lá não há muitos católicos pois não? uns cínicos...
P. não sei, acho que vai havendo... tem por acaso uma caneta que me empreste?
T. e hipócritos ...
P. estou aqui a tomar umas notas ... para uma aula ...
T. é o que se chama uma aula tremida ...vou passar o sinal encarnado por conta do sócrates… nunca houve tanta gente com canudo e mesmo assim as pessoas hoje são mais estúpidas do na idade da pedra lascada. tudo apita pá... bem, realmente a bicha já chega aqui acima. isto o que nos vai valendo é a justiça divina...
P. então o senhor ainda há pouco vociferava contra os católicos?!
T. eu sou o que se chama um agnóstico, mas não duvido da existência de uma justiça divina – então não verdade que todos nascemos sem nada e sem nada morremos todos ricos ou pobres, então não vê a doença do filho do melo não sei quantos? e como apodreceu para ali até à última o champalimaud - por isso é que ele fez aquela fundação...
P. sim mas eu inclino-me mais para a justiça humana...
T. não, há-de haver, o que é não sei, mas há de haver qualquer coisa acima de nós, uma coisa justa que não sei o que é, nem como se chama. até porque está a ver, se fossem os homens a mandar só morriam alguns...

2007-05-09

associação


P. era para a rua general roçadas. se calhar não sabe onde é, é uma ruela mínima, até acho que é uma espécie de beco que fica ali ao pé do hospital d. estefânia. vai dar...deixe ver à rua onde dantes era a academia militar
T. não será a general garcia rosado?
P. não sei, talvez era um general qualquer...
T. acho que é a general garcia rosado... mas se a senhora sabe lá ir vemos no local
P. combinado
...
P. caraças que o senhor percebe mesmo disto...
T. não, foi por uma questão de associação. como falou na rua general roçadas e essa não fica para aí, liguei...
P. os generais...
T. não, foi uma associação que eu fiz. liguei os dois nomes entre si. o que eu fiz foi associar o nome 'roçadas' ao nome 'rosado' e cheguei ao 'garcia rosado'. é como nós falamos - por associação...

2007-05-08

hámanhã?

P. parece que cheira a tinta aqui dentro, o senhor não sente?
T. sim cheira um bocadinho...isto amanhã já não se sente...
P. é que cheira mesmo bastante. não tem medo de andar aqui com este cheiro a tinta?
T. isto é só hoje, amanhã já não vai cheirar a nada...
P. mas pintou o carro ou quê?
T. isto é por pouco tempo, daqui a nada já não se sente o cheiro...
P. está bem mas enquanto não passa o senhor vai-se intoxicando metido aqui dentro com este horrível cheiro a tinta. eu aindo saio daqui a uns minutos... mas pintou o carro por dentro= ou foi por fora e o cheiro entra por essa sua nesga de janela aberta?
T. isto amanhã já passou, amanhã já não cheira a nada...

a força do sorriso

T. está a ver estes portugueses?
P. quais?
T. então não viu como aquele carro se meteu à nossa frente? a senhora que trabalha na universidade deve conhecer os portugueses...
P. não sei se conheço. mas pode ser que ao volante os nossos instintos venham ao de cima...pelo menos é o que se diz.
T. não, acho que não é isso. eu uma vez - eu vivi 32 anos na suiça - há alguns anos, mesmo aqui neste sítio, neste marquês, fui atrás de um que se atravessou à minha frente ...
P. mas chocaram?
T. só não chocámos porque eu consegui travar a tempo... fui atrás dele, pela duque de loulé acima, e meti-me à frente dele...vi logo que ele era imigrante na suiça.
P. mas como é que conseguiu ver isso?
T. percebia-se tão bem. ele até era imigrante noo meu cantão. e sabe o que é que ele me disse quando eu lhe perguntei se guiava assim na suiça? que se limitava a fazer cá o que toda a gente fazia...
P. e o que é que se faz de diferente cá?
T. é tudo. lá há respeito. os condutores, as autoridades. até os peões. a senhora não vê as pessoas aqui nas passadeiras?
P. pois é, se a gente não avança os carros não páram...
T. sim nalguns casos. mas muitas vezes são as pessoas que atravessam de qualquer maneira. e ainda nos olham com uns olhos... como se nos quisessem fazer não sei o quê, como se fossem donos sei lá de quê. e as coisas não são assim...lá na suiça, as crianças aprendem na escola que quando se chega a uma passadeira se deve sorrir. dá-se na escola, vem em todos os livros. ensina-se logo aos miúdos que primeiro se olha, para um lado e para outro, e depois se sorri... e aqui o que é que se ensina? nada...

2007-05-05

felicidade


T. por onde é que a senhora quer ir?
P. eu gosto de virar aqui à direita...
T. gosta e vira...
P. sim mas não faço grande questão ...
T. mas eu é que gosto de ir pelo caminho preferido dos clientes. acho que eles assim vão muito mais satisfeitos...

2007-05-03

retriever

T. a esta hora já ele está sentado em frente da porta à espera do meu filho!
P. quem?
T. o cão...
P. mas não estava a dizer que era uma cadela?
T. isso era outro...também era uma retriever. o retriever é uma raça excepcional. mas não sei, parece que as cadelas são mais mimosas. não é que ela não soubesse quem era a dona, mas os retriever são assim: são amigos de toda a gente mas dono é só um...
P. então quem era o dono dessa?
T. era a minha mulher. a cadela era o ai jesus dela ... ou ela é que era o ai jesus da cadela. olhe que um dia, de brincadeira com a minha mulher, agarrei-lhe assim no pescoço e ela deu um grito. bom... a cadela abriu assim os lábios e começou a rosnar ... mas com uns olhos tão frios, mesmo gelados...
P. não podia saber se era a sério ou a brincar...
T. lá está, vá-se lá saber o que vai na cabeça dum cão!

2007-04-28

relações internacionais

apesar do passageiro, que aqui fala, falar em nome do motorista, e daí o discurso directo do diálogo, na verdade, o discurso do motorista é, como se entende, sempre indirecto. quem quiser ouvir, directamente, o discurso do motorista, tem de entrar noutros taxis. além dos dois portugueses e de um norte-americano, chamados em posts anteriores, pode entrar neste que "anda às voltas" algures no brasil.

auto túnel

P: ... mas estes engarrafamentos não serão só nos primeiros dias?
T: oh minha senhora há 36 anos que eu ando aqui às voltas ... isto vai ser assim sempre. viu eles deitarem alguns prédios abaixo para alargar as ruas? ou construirem passagens por cima das ruas, coisas que permitissem andar? então se as ruas são as mesmas, os carros os mesmos, o túnel não vai pôr carros no centro da cidade, como eles dizem, vai pô-los debaixo do chão.
P: se calhar...
T: ... comigo aconteceu esta história. enquanto se estava a construir a auto-estrada de cascais, eu apanhei um senhor que queria ir para caxias que era onde ficavam os estaleiros da obra. fomos a conversar, foi ele a dizer das vantagens da auto-estrada que ia resolver a situação dos moradores da linha e tal, que ia pôr os carros na cidade num instante e mais isto e mais aquilo. eu deixei-o falar, sempre calado e quando ele acabou disse-lhe que pela minha experiência a auto-estrada não ia pôr carros na cidade, ia pô-los na bicha... ele argumentou que não, que tinham sido feitos muitos estudos...os engenheiros (ele era engenheiro) e mais não sei o quê. eu só lhe disse: "o senhor fique-se com o que lhe diz o motorista de praça - a auto-estrada só vai servir para pôr carros na bicha".
por minha sorte, ou infelicidade, há dias atrás apanho um senhor que vinha para a obra do túnel. a certa altura diz-me ele assim: "o senhor teve sempre este carro?"/"não, este é mais recente"/ "então e não se lembra de mim, nem dum serviço que fez há muitos anos, para caxias?"/"não sei talvez mas sabe como é ... eu transporto tanta gente, faço tantos serviços"/"pois eu é que não me esqueci da nossa conversa sobre a auto-estrada de cascais. e até me farto de falar de si aos meus colegas..."
P: então ele estava também a trabalhar no túnel?
T: estava, é engenheiro e trabalha para aquela empresa ... Tâmega.
P: ... certo. mas então como é que se tiram os carros de lisboa - se o senhor diz que não é com parques de estacionamento nas entradas da cidade nem com o pagamento de taxas para entrar, nem com melhores transportes públicos?
T: não se tira. só proibindo. não se tira porque o português é preguiçoso e só não mete o carro debaixo da secretária, no escritório, porque ele não cabe lá...

2007-04-27

mixa


P: não percebi é o que era exactamente uma 'mixa'... é uma colher?
T: chamavam-lhe 'mixa'... eras os miúdos do gamanço com quem eu jogava futebol em alfama. quando eles não estavam na cana claro... lá está, vinha um e dizia para os outros 'esta noite vamos guiar mercedes'. acabava o jogo eles entravam num café, pediam uma bica e fugiam a correr sem pagar... traziam a colher e metiam-na assim na linha do eléctrico. quando ela ficava achatada, servia-lhes de ferramenta para abrir as fechaduras dos carros. isso... entravam em todos os todos os carros que queriam... tinha de ter muito cuidado nessa época, para aí nos anos 70. está bem que eu não vim para cá saloio. os meus velhos lá na terra sempre me foram dizendo isto e aquilo, já sabia como as coisas eram. mas mesmo assim...

2007-04-25

internacionalização


o tek-si alarga os seus horizontes: além do ponto de vista da passageira, ele contemplava já o ponto de vista de dois taxistas portugueses(fogareiro e taxe) nacionais. agora passa a incluir também o ponto de vista de umA taxista nova-iorquina.

2007-04-24

teatro


P: está à espera de alguém não está?
T: não não estou.
.......
P: como o vi aqui parado na rua julguei que estivesse à espera de alguém.
T: estava à espera da saída do teatro. mas já cá estou à meia hora e nada.
P: devia estar parado era do outro lado, em frente do são jorge. está a sair imensa gente e há-de continuar porque há filmes que começam à meia-noite.
T: a senhora veio de lá foi?
P: vim. é aquele festival de cinema, sabe o indie que tem filmes em vários cinemas
T: não não sabia mas a a essa hora já não há metro... hei-de lá passar a perguntar a que horas acaba. é que isto não há nada para fazer, é mesmo uma tristeza.
P: mas hoje em particular ou é todas as noites?
T: é todas as noites ... por isso é que eu me ponho à porta do teatro. fora disso não há ninguém. nada mesmo, é uma tristeza. ninguém sai de casa à noite...

de tek-si a taxe


já me tinha apercebido que neste mundo de cá era corrente o termo 'taxe'. assim aparece ele no cabeçalho deste blog, de outra alma gémea certamente, e bem mais bonito do que este.

de pressa(s)

P: o sr importa-se de ir um bocadinho mais devagar? é que eu não gosto nada de andar a esta velocidade.
T: a senhora não tem pressa?! mas olhe que toda a gente me pede para ir depressa, ou porque vão apanhar o combóio ou para o aeroporto, ou sei lá para onde. ainda agora duas rapariguinhas até me pediram para passar um sinal encarnado...
P: pois é mas na minha idade já não se tem pressa
T: outro dia era um senhor muito gordo, mesmo gordíssimo, que só me dizia para eu acelerar. mas tudo tudo aí parado, não se podia avançar...ia para um bar ou lá o que era...
P: ah então é por isso, como de dia não pode acelerar à noite tira a barriga de misérias...
T: e depois chegámos lá a um bar ou lá o que era, de caracóis e cerveja e os amigos até lhe disseram que se ele não tivesse chegado já não tinha nada para comer...

2007-04-22

a proliferação da "escultura" na cidade

P. boa, outra "escultura" pública!
T: ...esta é afecta ao instituto superior técnico.